Histórias Insólitas no Imobiliário

Há histórias que não se esquecem… e, neste artigo, ficará a conhecer alguns dos episódios mais caricatos que o consultor imobiliário, André Maia, já presenciou.

INSÓLITOS NO IMOBILIÁRIO

Existem dias em que me questiono qual será mesmo a minha profissão. Há uns tempos, em conversa com um cliente sobre as adversidades de um consultor imobiliário e de como a resiliência e criatividade são essenciais no nosso dia-a-dia, comecei a lembrar-me de momentos que vivi dignos de uma novela mexicana em que o meu papel era, sem dúvida, de malabarista. Nada como saber improvisar quando o guião não é seguido à letra.
Conto-vos 9 histórias que vivi em primeira pessoa e que me arrancam sempre algumas gargalhadas (se bem que na altura, na maioria das vezes a boa-disposição não foi bem o meu estado de espírito). Espero que gostem tanto quanto eu não gostei de as viver.

#1 Quando o coração não tem juízo, a casa é que paga 

Já sabemos que a venda de uma casa é, muitas vezes, um processo com muita emoção à mistura. Há uns tempos, depois de fecharmos as condições de um negócio entre as partes, e na altura da discussão do CPCV, o vendedor decidiu em plena reunião que afinal só fazia o negócio se a venda fosse por um valor superior ao combinado. Isto aconteceu presencialmente, onde estavam todas as partes. Fiquei boquiaberto, sem saber o que fazer. Os compradores acabaram por abandonar a reunião e o vendedor ficou com uma mão cheia de nada. Depois de “ralhar” com o proprietário sobre este comportamento, e explicar que o valor deste negócio era o melhor que era possível fazer, considerando que foi a proposta mais alta que tinha recebido em 4 anos, lá acordamos que fazia sentido fazer o negócio nos termos originais.

De seguida, com muita calma, abordei os compradores, expliquei o peso sentimental e a frustração que este negócio tinha gerado ao proprietário, e lamentei o estilo de negociação pelo choque geracional entre ambos. Depois da poeira assentar, ambas as partes concordaram em seguir, conforme combinado.

#2 Penhoras. What else? 

Uma penhora é sempre um tema sensível: para quem é penhorado é “pôr o dedo na ferida”, para quem assiste à penhora é como “um fantasma e quer fugir a sete pés”. Às vezes, existem casos em que o proprietário não sabe da existência da penhora e temos nós de acautelar que pagam os respetivos ónus.

Mas com penhoras, além de “controlador”, já tive mesmo de ser um equilibrista. Tivemos um caso em que a penhora já tinha sido paga, mas voltou a aparecer do nada, o que nos bloqueou o negócio… Tive de andar num jogo de equilíbrio entre Conservatória, Finanças e o Tribunal para conseguir esclarecer e confirmar que estava de facto resolvida.

#3 Escritura pelo “banco” abaixo 

Já devem estar a par, mas nada como reforçar: se há ato simples, sem grandes surpresas e que por norma é um processo standard e consolidado é a escritura. Mas às vezes…

Houve um caso em que a incompetência e falta de comunicação de um Banco ia fazendo com que um negócio não acontecesse, por não conseguir acomodar a realização de uma permuta técnica. A incapacidade de gerir este processo foi tão grave que as datas possíveis para culminar o negócio foram resvalando até ao limite, deixando quer vendedores quer compradores num stress completamente desnecessário. A solução despropositada, mas que resolveu o problema? Contratámos um notário particular para ir às instalações do Banco realizar o ato em vez do notário deste. Surreal, mas funcionou.

#4 Repetição do título anterior (agora elevado ao quadrado) 

Estão prestes a testemunhar a pior prestação que vi de um Banco em todos os processos da Home Hunting.

Certo dia, um casal que iria comprar um imóvel que estávamos a promover tinha o processo alinhado com o seu Banco para comprar, já com a pré-aprovação, as contas todas feitas, avaliação do imóvel realizada, seguros tratados e o Banco já estava a marcar a data da escritura.

E não é que, dias antes da suposta escritura, o Banco cancelou tudo porque afinal o sistema/processos internos deles não conseguiam acomodar que apenas um dos elementos do casal é que financiava a casa e que o outro elemento não? Sem financiamento e com a data limite para escritura em cerca de duas semanas, já com sinal pago e CPCV realizado, os compradores ficaram muito atrapalhados.

Rapidamente enquadrei esta situação com o vendedor e ganhámos mais algum tempo para resolver a situação. Como tínhamos uma ótima relação com o BPI entrámos em contacto, os compradores alteraram tudo para este banco e o BPI conseguiu fazer tudo o que era preciso em tempo recorde. Três semanas depois a escritura estava feita com o financiamento do Banco. Mas durante algumas semanas a ansiedade foi muita… Obrigado, BPI.

#5 Barricado na Câmara Municipal de Lisboa

Na venda de um apartamento no Parque das Nações, tivemos um percalço com a ficha técnica de habitação (FTH), uma vez que originalmente não tinha o selo branco da CML e, no processo de obtenção, fomos brindados com uma FTH certificada com uma nota devastadora porque foram detetadas “várias irregularidades”.  Ora, nem o comprador nem o notário quiseram aceitar o documento neste estado e sem isso não havia negócio.

Muito atrapalhado, tentei entender quais eram as irregularidades existentes, se a FTH havia sido feita de forma correta e, claro, se era possível fazer uma FTH em tempo útil (não é). Foi então necessário viver dois dias “barricado” na CML para resolver a situação:  assim consegui que houvesse diálogo interdepartamental e que chegassem à conclusão de que, afinal, as irregularidades existiam pela falta de anexos relativos a plantas em duas frações diferentes da nossa. Logo, não fazia sentido privar a documentação de certificação das frações que não tinham esta limitação. E lá “rapidamente” emendaram a FTH.

#6 Será que em Hollywood é assim? 

Um cliente nosso tinha uma casa arrendada e estava a ter problemas com o inquilino no pagamento das rendas. Entretanto verifiquei que vender seria uma hipótese interessante e sugeri o tal inquilino como potencial comprador. Depois da abordagem, percebi que a ideia tinha pernas para andar (não sabia é que andaria aos trambolhões). O inquilino/comprador era uma pessoa muito difícil de contactar e raramente nos dava as informações que precisávamos para gerir o processo. Por isso, cheguei a ter de “fazer uma espera” por ele à porta de casa várias vezes, para conseguir informações básicas e coordenar agenda. Admito, no dia da escritura o receio de ele não aparecer era enorme, mas a história lá teve um final feliz.

Em tempos, tive também outro cliente – neste caso um comprador estrangeiro – que na altura da assinatura do CPCV apresentava uma postura diferente da que tinha conhecido até então. Os olhos diferentes, a forma de falar mais arrastada… Apesar da namorada e do vizinho dizerem que era um comportamento normal nele eu estava desconfortável e queria ter 100% a certeza de que a pessoa que assinava o CPCV estava completamente consciente do que fazia. Como fiquei com o contrato do meu lado para o vendedor assinar depois, acabei por destruir este primeiro contrato assinado. Liguei para o comprador no dia seguinte de manhã para assinarmos o contrato novamente, já em condições e com testemunhas. Tudo acabou por correr bem, mas só à segunda. Às vezes é mesmo importante ter cabeça fria. Será que vender casas a estrelas de Hollywood é sempre assim?

#7 Heranças… O nome diz tudo 

As heranças e partilhas podem ser algo complicadas de gerir, mas quando são mal feitas, tornam-se um “molho de brócolos” para alguém resolver. Neste caso, na ocasião de venda de um prédio de uma família, verifiquei que o registo a favor deles tinha sido mal efetuado na Conservatória por altura das partilhas, há umas décadas.

Conclusão? Uma caça aos documentos perdidos. Até à Torre do Tombo se foi para procurar registos, atrás de notários que, entretanto, foram extintos, etc. Uma odisseia! Depois de muito suor, lá se obtiveram os dados originais em falta para se emendar o processo, e após o aval da Conservatória, o processo pôde ser concluído com sucesso.

#8 Cofres, para que te quero? 

Recentemente fechamos um negócio num apartamento em Lisboa, onde a única coisa fora do comum que tivemos de auxiliar foi a remoção de 2 cofres enormes. Os compradores precisavam da casa vazia e os vendedores não tinham forma de tratar do assunto. Pensei para comigo “isto não há de ser difícil”. Bolas, estava enganado!

Atente, que esta informação pode ser útil no futuro: os fornecedores dos cofres não fazem o serviço inverso, isto é, de desinstalar. Revender os cofres não era hipótese pois para a idade que tinham que não eram valorizados ao ponto de alguém os ir buscar. Acabei por pensar em efetuar uma mudança “simples”. Contactei mais de 15 transportadoras para fazer a mudança e apenas uma (UMA) depois de ver os cofres, se aventurou a aceitar o desafio. Foram precisos 4 horas, 6 homens e uma série de ferramentas para se conseguir pôr os cofres na carrinha. O esforço foi tanto que se danificou um corredor de acesso, e foi preciso limpar e pintar novamente uns dias depois. Ufa!

#9 A “portinhola mágica” 

Na conclusão de um negócio, o comprador indicou que havia uma portinhola de acesso à corrente elétrica que tinha sido vandalizada e que queria o assunto resolvido até à escritura. O proprietário não tinha forma, cabeça e vontade de se chatear com aquilo e fiquei eu responsável pela “portinhola mágica”. Pensava que seria algo simples. Pensava…

Depois de ir ao revendedor de material técnico, percebi que o modelo foi descontinuado e que as versões atuais da porta são diferentes (e não cabiam). Falei com a fábrica que fez o modelo e disseram que já tinham substituído os moldes, não havendo qualquer capacidade de produzir novamente aquele. Indicaram que teria de fazer a obra de adaptação e mudar toda a caixa elétrica. Portanto, um pesadelo em mãos. Já me estava a imaginar em modo trolha a fazer um do-it-yourself naquela caixa elétrica.

Mas, num laivo de inspiração, pensei que um bom artesão iria conseguir fazer um trabalho de reparação de qualidade e pus-me a contactar toda a gente que poderia ter a capacidade para executar tal trabalho. Acabei numa oficina de serralharia em Odivelas, com um senhor muito pouco amigável, mas com imensa experiência, que reparou brilhantemente esta porta por cerca de 16€. Impecável!

Enfim, exemplos há muitos e resiliência e capacidade de improviso são a chave. Em momentos de tensão, confusão e discórdia, as partes tendem a apoiar-se no malabarista, perdão, no consultor imobiliário para desbloquear a situação, e temos de estar de preparados para dar uma resposta à altura.

E do seu lado, já teve algum obstáculo insólito? Tem algum processo difícil em mãos?

0

André Maia

Consultor Imobiliário da Home Hunting, especialista no concelho de Lisboa. Apaixonado por números e conhecimento, tem mais 8 anos de experiência como consultor no setor da Banca, ligado a projetos de tecnologia e risco. Adora poder dar o seu contributo e está sempre pronto a ajudar, estando habituado a que o seu trabalho tenha um impacto grande na vida das organizações e das pessoas.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Post comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Está a um passo de receber todas as
novidades da Home Hunting!